MAR DE MEMÓRIAS

A fotografia foi minha linguagem precursora na arte. Com ela, procurei subverter a técnica e o senso comum que considera o produto fotográfico como resultado de um processo mecânico – registro, documento associado à realidade. Dotado de um olhar inclinado a captar as paisagens marítimas de grandes cidades litorâneas, sobretudo a qual habito, enfatizo a relação da população com o mar, deixando-me afetar por essas paisagens e todas as lembranças que me trazem.

Nossas memórias são repletas de lacunas, que tentamos preencher sempre que as resgatamos, consciente ou inconscientemente. As fotografias deste ensaio cortejam a pintura, navegam pelo impressionismo e expressionismo, numa estética híbrida que representa essas memórias. Os objetos perdem seus limites, fundem-se em seus contornos. As cores vibrantes e a deformidade provocada pelo movimento inquieto da câmera dramatizam as cenas, compostas de forma a subverter os cânones fotográficos. A nitidez costumaz das imagens dá lugar à dúvida, à imprecisão. As figuras presentes podem ser reconhecidas – tem ligação direta com o mar –, mas por vezes estão fragmentadas. O mar, protagonista, preenche quase por completo o plano pictórico. O trabalho convida o observador a instantes de incômodo, nos quais as recônditas memórias são alcançadas a fim de completar a obra inacabada. Nesse momento, as memórias do artista e do público confluem, como duas correntes marítimas. Por isso, as obras propiciam novas experiências e outras imagens surgem a cada observação.

 

Este trabalho reaproxima-me do mar, das experiências que me tornaram quem sou, da cidade em que nasci e vivo até hoje, da minha essência. As obras estimulam o observador a voltar para si, a mergulhar no mar de memórias que o constitui.